Maio 2021 - Késsia Arts Bh

O Feminicídio sempre existiu?

em sábado, 22 de maio de 2021


 

            Todas as vezes que lemos uma matéria em uma revisa ou jornal, ou assistimos as reportagens do dia, nos deparamos com casos tristes de feminicídio, em BH, no Brasil e no mundo. Acontece que, ele sempre existiu, só que hoje, com tanta tecnologia, com tantas vozes para denunciar esse abuso, essa covardia está sendo exposta para toda a população.

No mundo de hoje, com a tecnologia avançada, temos uma população mais engajada, conectada o tempo todo com tudo o que acontece no mundo. Nesse mundo virtual, que os atos de feminicídios são denunciados a todo momento, em tempo real e nos damos conta que, talvez, a nossa sociedade tenha recebido como herança, os costumes de antigamente e que estes, estão sendo apenas adaptados à nossa realidade.

            Porém, nem sempre tivemos uma internet à disposição, uma energia elétrica, tvs, smartphones e tudo mais que temos hoje, para estarmos cientes dos acontecimentos ao nosso redor. Desde sempre, a literatura, assim como a língua, vem sendo um instrumento de comunicação e de interação social.  Não é de hoje que diversos escritores, jornalistas, cronistas e outros, denunciam os abusos que as mulheres sofrem., através de artigos e da própria literatura.

Podemos tomar como exemplo, um escritor famoso: Machado de Assis. Contista, cronista, jornalista, poeta e teatrólogo, além do que é o fundador da cadeira n.º 23 da Academia Brasileira de Letras. Não podemos esquecer, que Machado vivia em uma época que a escravidão existia e que, usando sua sabedoria e uma pena, consegue descrever de forma minuciosa, como eram aqueles tempos. O que sabemos hoje, são as lembranças de vários autores, inclusive as dele.

“ Machado de Assis, é considerado grande criador de personagens femininas, enigmáticas, misteriosas, dotadas de grande senso de percepção, capazes de manipular psicologicamente o mais astuto dos homens” (BAGNO, 1998:67)

Analisei dois contos de Machado de Assis: Pai contra Mãe e A Cartomante. Esses contos, conhecidos e comentados por muitos estudiosos, nos mostram como as mulheres eram tratadas naquele tempo. Machado tem uma forma de escrever, uma ironia, que nos deixa desconcertados, mas detalha exatamente como a sociedade burguesa era hipócrita.

Em A Cartomante, Machado nos envolve com assassinato, adultério e a sustentação de um casamento vazio em prol da ordem social. Ele nos mostra como o casamento naquela época, era baseado na conveniência. O adultério, era um tema muito utilizado. Hoje não é muito diferente. Por mais que as mulheres estejam conseguindo seu lugar em uma boa empresa, ou sendo uma empreendedora de sucesso, ainda sim, um “bom casamento” é visto como o melhor para a mulher.

No conto Pai contra Mãe, nos deparamos com uma outra realidade, mais assustadora devido à época. Nele, conheceremos a história de Cândido Neves e de Arminda. Candinho, era um rapaz preguiçoso, que não parava em emprego nenhum e Arminda era uma escrava. Só por essa descrição, já temos uma noção de quem é o mais forte. Machado trás no início do conto, aparelhos que eram utilizados para prender os escravos: ferro no pescoço, ferro nos pés e etc. Como sabemos, através de relatos de escritores que tiveram a ousadia de escrever naquele tempo e através de parentes de escravos, esse genocídio deixava aqueles seres humanos com a saúde fraca, isso se sobrevivessem aos castigos. Arminda, a escrava, era somente uma “mercadoria”. Tanto na realidade quanto na ficção, a lei da selva é a que regula as relações. Candinho estava procurando Arminda para lhe devolver ao seu “dono” e estava prestes a perder seu primeiro filho. O dinheiro da captura, poderia ajuda Candinho e sua esposa, a manter a família unida. Quando Arminda é capturada, um choque: ela sofre um aborto. O desfecho revela o pior lado do ser humano, porém, é o instinto de sobrevivência. Sabemos que o simples fato de Arminda ser escrava, é quase impossível ela lutar por seus direitos, mas a sua cor e o fato de ser mulher, piora a sua situação.

Com a criação da Lei 13.140, aprovada em 2015, o Feminicídio passou a ser um crime, constar no Código Penal. Para isso, considera-se crime, o ato de violência doméstica e familiar e menosprezo ou discriminação à condição de mulher. A Lei Maria da Penha, reconhecida em todo o mundo, ainda precisa de implementação, principalmente à prevenção, como avalia a promotora Silvia Chakian. As mulheres negras são as mais violentadas, muitas vezes, são os próprios familiares ou parceiros que cometem os crimes.

            As principais formas de violência identificadas em estudos são: física, sexual e psicológica. As consequências dessas violências, são lesão corporal leve ou óbito. Agravos na saúde mental e física. Isso tudo leva a danos de longo prazo como a depressão, tentativas de suicídio, gravidez indesejada.

Para uma sociedade tão machista e conservadora, não existe mágica, mas existem as vozes, existem pessoas que estão empenhadas em denunciar esses abusos e dispostas a trabalharem para que a mulher tenha uma ajuda psicológica, financeira e acima de tudo educacional.

Falarmos hoje, da liberdade plena da mulher, de ser emponderada, ainda é muito cedo. É certo que a cada dia, as mulheres quebram barreiras que não deveriam existir, mas a mudança começa em cada uma de nós. Falar a palavra menstruação é terrível, a palavra vagina então, é o fim do mundo.

Para isso tudo acontecer, devemos sempre contar com todos os órgãos dispostos a ajudar mulheres que sofrem abusos e lutar por ações como segurança pública, saúde, educação a fim de dar maior resolubilidade ao problema e maior suporte às vítimas. O Feminicídio sempre existiu, cabe a nós, como sociedade “avançada” que somos, dizer basta a tanta covardia.